Mentiras Sinceras  
 
   
BRASIL, Mulher, de 20 a 25 anos
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    A ultima sexta-feira de nossas vidas!

    Era sexta-feira como hoje, ensolarada, quente e desagradável. Também era dia 22/08, véspera do sábado.

    Não existia mais esperanças, nada além de visita-lo e olhar pra ele desejando que a dor cedesse e seus olhos fechassem pra que então ele descansasse em paz.

    Não ia visita-lo. Não queria dizer adeus mais uma vez. Mas o vento soprou me chamando de ingrata, ele dizia bem devagar, corre lá, diga mais uma vez adeus, você não sabe o que vai acontecer amanhã.

    Então fui, entrei naquele ambiente todo branco, nostálgico e doloroso. Senti aquele cheiro de naftalina, dor e sangue. Me aproximei da cama, senti sua respiração, seu coração ainda batia. Seu peito crescia, a doença era visível. O câncer estava por todos os lados, mostrando pra mim o quanto não somos nada.

    Aproximei do rosto dele e disse bem baixinho: “ Vai em paz, segue o seu caminho, eu cuido de tudo aqui.”

    Chorei quietinha nos poucos minutos que tinha ali, respirei fundo, agradeci a Deus sei lá porque , fechei os olhos e sai.

    Foi ali o ultimo minuto com meu pai. Foi naquele instante que a gente se despediu e disse adeus. Sai da sala e no fundo sabia, que aquela sexta-feira era a ultima sexta de nossas vidas aqui.

    Caminhei de volta pro meu mundo, cedi minha vez na visita noturna. A gente já tinha se despedido.

    Fui pra casa, chorei um parto, lamentei uma vida. E sai. Na mesa a noite todos em volta tentando de alguma forma me alegrar. Bons amigos. Bebericando daqui, contanto causos dali e tentando me fazer esquecer a dor que dilacerava meu coração.

    Mas ninguém conseguiu. Em dado momento, uma amiga me chamou de volta pro mundo real e perguntou se eu não queria um gole de cerveja. Voltei pro mundo e respondi, melhor não, não sei o que vai acontecer amanhã.

    Mas, no fundo eu já sabia. Era o fim da sexta-feira.

    O telefone tocou as 10hrs da manhã do dia 23/08, era a mulher dele dizendo que ele descansou e que eu precisava ser forte.

    Minha avó sentou na cama e chorou comigo. Respirou fundo e sentiu a dor que ao mesmo tempo aliviava e dilacerava. Ele descansou seu grandes olhos. Ele vai encantar outro lugar.

    Vesti uma calça jeans desbotada, uma sandália vermelha e uma blusa verde que eu amava. Passeis as próximas 6 horas completamente sem entender o que estava acontecendo. De um lado era meu irmão que chorava, do outro meu pai que de olhos fechados estava deitado em um caixão. Meu tio chorava e perdia o ultimo membro de sua família. Minha irmã tão pequena sofrendo tanto. Minha madrasta sendo a viúva da vez e minha mãe rindo de tristeza, nervosismo e felicidade. Ele não estava mais presente e não era mais casado com “a outra”. Era várias coroas de flores chegando, pessoas ligando, gente falando do quanto ele era bom e que tragédia tinha sido essa doença.

    Era vários amigos olhando pra mim com cara de pesar, querendo me pegar no colo e me levar dali.

    Um mundo que eu não entendia.

    Eu lembro que em determinado momento sai andando,  lembrei no meio daquela confusão toda que ainda não tinha comido nada. Meu estomago estava gritando em um sinal de vida. Caminhei e quando me dei conta as minhas amigas todas em fila indiana atrás de mim. Para que se caso eu caísse, todas elas me pegariam no colo.

    Mas o mais triste desses dois dias foi a hora em que o mundo parou. Caminhamos lentamente até o ponto onde a gente se despediria do pouco que ainda restava. Alguém perguntou se era necessário abrir novamente o caixão. Ela olhou pra mim e pediu silenciosamente pra que não, já tinha doido o suficiente.

    Pedi pra baixar e acabar logo com aquilo. Eu precisava respirar, chorar, gritar, sofrer a ausência dele.

    E foi assim que a gente se despediu.

    E hoje, seis anos depois, também é sexta-feira dia 22/08. Também está quente, ensolarado, seco e nostálgico.

    Fechamos então um ciclo.

     

     



    Escrito por Sinceras desculpas às 17h30
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